Alice no País das Maravilhas é um delírio de humor sutil e absurdo
Resenha crítica de "Alice no País das Maravilhas"
Há mais de 150 anos, na Inglaterra, numa viagem de barco, um professor com pseudônimo Lewis Carroll contava histórias a três meninas, as irmãs Liddell. Ele decidiu por esses contos no papel, dando origem a Alice no País das Maravilhas.
A história narra uma garota chamada Alice que cai num buraco e encontra toda uma miríade de absurdos por lá. Há vários animais falantes, como um gato alucinógeno e uma lagarta tabagista. Bolos que te transformam em gigante, poções que te fazem encolher. E todos vivem sob controle de uma monarquia que gosta de cortar cabeças.
O humor d’As Aventuras de Alice Embaixo da Terra
A narrativa é o que hoje chamamos de nonsense, princípios lógicos do mundo real são sobrescritos por uma nova e imprevisível lógica. Seja em descrições delirantes de cenário, até diálogos simples que exortam um humor tímido:
Alice estava olhando por cima de seu ombro com curiosidade. “Que relógio engraçado”, comentou ela. “Ele diz o dia do mês, e não diz as horas!”
“Por que deveria?”, murmurou o Chapeleiro. “Seu relógio lhe diz em que ano estamos?”
“Claro que não”, respondeu Alice muito prontamente; “mas isso é porque permanece o mesmo ano por muito tempo.”
“Que é exatamente o caso do meu”, disse o Chapeleiro.
Alice se sentiu terrivelmente intrigada. A observação do Chapeleiro parecia não ter nenhum tipo de significado e, no entanto, era certamente português.
Alice é a surrogate du lecteur, isto é, ela parece ser a única com sanidade mental e traz a voz do mundo real para dentro daquele universo, representando o leitor dentro da história. O humor do nonsense se apoia totalmente nesse produto do contraste entre racional e irracional.
E funciona bem. Especialmente por Alice ser uma criança, ela se permite um pouquinho “entrar no jogo” dos animais falantes. E cria reações variadas e gostosas de ler: ora enfrenta, ora investiga e às vezes apenas aceita o disparate à sua frente.
Porém, é possível o humor não agrade a quem está mais habituado a piadas extravagantes ao estilo brasileiro. Pois, mesmo ante a visões oníricas, os diálogos mantêm compostura, o cômico vem do deboche e ironia, é um traço britânico.
A separação entre sonho e realidade é mais fina do que aparenta
O livro diz que o País das Maravilhas é um sonho. Mas as entrelinhas parecem dizer outra coisa. Porque o mundo todo aparenta girar ao redor de Alice. Mesmo dita desnorteada, ela navega estranhamente confortável e íntima.
A justificativa para isso parece estar nesse diálogo com o Gato de Cheshire:
“Nessa direção”, disse o Gato, apontando sua pata direita, “vive o Chapeleiro Maluco; e nessa direção”, apontando a outra pata, “vive a Lebre Maluca. Visite qualquer um deles, ambos são doidos.”
“Mas eu não quero me misturar com os loucos”, comentou Alice.
“Oh, você não pode evitar isso”, disse o Gato; “estamos todos loucos aqui. Eu estou louco, você está louca.”
“Como você sabe que estou louca?”, perguntou Alice.
“Você deve estar”, disse o Gato, “ou você não teria vindo aqui.”
Perceba, se tudo é um sonho na cabeça de Alice, então toda e qualquer esquisitice é apenas o reflexo de sua própria imaginação fértil e/ou mente confusa.
Por isso, no passar das décadas, criaram-se muitas teorias sobre o que cada personagem poderia vir a significar para a menina Alice. De conjecturas mais leves, temos: o Coelho Branco com seu relógio sendo a ansiedade com compromissos; o Chapeleiro Maluco como as regras de etiqueta da sociedade; coisas assim.
Uma interpretação em específico tem mais força, na conversa com a Lagarta:
“Quem é você?”, disse a Lagarta.
Esta não foi uma abertura encorajadora para uma conversa. Alice respondeu, um pouco tímida: “Não sei ao certo, senhora, apenas no momento… pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então.”
Isso acontece depois de Alice ter alterado de tamanho muitas vezes. Indo de tão pequena quanto uma chave até maior que as árvores, e até nadou na piscina de suas próprias lágrimas. Isso representaria a psique de Alice sobre as mudanças de sua puberdade.
Fica ainda uma dúvida secundária sobre de onde veio a inspiração visual tão específica como uma criatura antropomórfica fumando um narguilé acima de um cogumelo no meio da floresta.
Sobre o autor Lewis Carroll
Um dos únicos assuntos tratados de forma recorrente pelo livro é a crueldade caricata da rainha e da estupidez de seus nobres. É intuitiva a hipótese de que o autor estivesse criticando sua própria monarca, a rainha Vitória da Inglaterra. É um pontapé de muitas teorias sobre quais exatamente são os outros “assuntos adultos” do livro.
Outro tópico é que a protagonista é inspirada numa criança real, Alice Liddell. O autor Charles Dodgson (nome verdadeiro) era um homem de 30 anos com forte amizade com meninas pré-adolescentes, algo moralmente questionável na ótica moderna. Contudo, os descendentes vivos da família Liddell o defendem, dizem ele apenas gostava de contar histórias. Estudiosos divergem nessa polêmica.
Crítica final: 5/5 ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
Clareza: +1.
Parece contraditório haver clareza em uma obra nonsense, mas as descrições na verdade são bem objetivas e curtas, raramente se perdem.
Profundidade: +1.
Os personagens se limitam às suas primeiras impressões. Por outro lado o universo é riquíssimo. E tudo permite infinitas interpretações.
Execução: +1.
Os capítulos são bem organizados. E a lógica absurda é “consistente em si própria”, ela choca de início mas não se contradiz depois.
Inovação: +1.
Uma forma alucinógena de ver o mundo, bastante incomum de se encontrar em livros, até hoje inclusive.
Propósito do gênero: +1.
Uma ficção muito memorável e a leitura é tão saborosa que é possível digerir tudo em um ou dois dias.
Total: 5 estrelas. Uma história simples, mas muito visual, rica de significados e quase interativa, é como um curta-metragem condensado em folhas de papel.






