Anne Frank House, entre o silêncio do Anexo e o barulho da História
Minha visita ao museu e memorial
Seis horas da tarde, terminei meu dia de trabalho e parti pelas ruas de Amsterdã. O destino era a Anne Frank Huis, ao longo do canal Prinsengracht. Apesar do horário, o céu ainda estava claro, só escureceria pelas dez da noite.
Uma lembrança tola para mim mesmo no futuro: eu havia esquecido o desodorante, mas como borrifei muito perfume, fingi costume e vida que segue.
Programa de introdução
“Não podemos mais mudar o que aconteceu. A única coisa que podemos fazer é aprender com o passado.” (Otto Frank)
Antes de visitar o Anexo propriamente dito, havia a opção de ir a uma espécie de aula introdutória. Senti-me uma criança em passeio de escola. Após uma fila e vários lances de escada, chegamos a uma sala com mesas redondas, banquinhos, fotografias de quem passou pelo Anexo e (conforme vídeo abaixo) réplicas de alguns objetos.
Sentei de pernas juntas num dos tamboretes para ouvir a funcionária falar. Foi um resumo sobre a Primeira Guerra em que Otto Frank lutou como oficial alemão, os ressentimentos e crises econômicas que levaram à Segunda Guerra e o contexto em que a família Frank saiu da Alemanha para morar nos Países Baixos onde os nazistas removeram suas cidadanias alemãs.
Enquanto ouvia a aula, por duas ou três vezes, ouvi o sino da igreja ao lado.

“Pai, mãe e Margot ainda não se acostumaram com o badalar do relógio da Westerkerk, que toca a cada quinze minutos. Eu não. Gostei desde o início.” (Anne Frank)
O som causava imersão e impunha reverência à história real. Quando ouvi pela primeira vez, foi como se pesos puxassem meu semblante e membros ao chão. Afinal, Anne Frank ouviu o mesmo. Mas, ela própria narra, em algum momento os nazistas roubaram partes para usar na guerra, talvez o som seja diferente.

A atmosfera criada, portanto, era de respeito e seriedade. O assunto é obviamente trágico, mas a funcionária apresentou de forma objetiva e sensível ao mesmo tempo. Com bom humor comedido e não recorreu a sensacionalismo nem horror gráfico.
Meus olhos arderam por um ou dois momentos. Eu já sabia quase tudo, pois pesquisava muito enquanto lia o Diário. Mas a torrente de informações em voz alta junto da imersão física me fez pensar em como certas estratégias autoritárias reaparecem hoje em dia, fingindo proteger a economia ao direcionar o ódio da população às minorias. Um risco constante à democracia, vide o Paradoxo de Popper.
Terminado o programa introdutório, fomos ao Anexo Secreto. Fotografias pelos visitantes são proibidas, mas as imagens oficiais no website do museu estão atualizadas e batem com o que vi.
Explorando o Anexo
Um radinho verde dá explicações traduzidas sobre cada ambiente da antiga empresa. Há muitas citações de Anne e Otto, objetos originais preservados da época e cenas curtas de entrevistas e documentários.
Havia cômodos até confortáveis, paredes claras, lareira. Isso até chegar de fato no Anexo Secreto, onde o espaço era acinzentado e claustrofóbico. Tudo sem mobília.
As pessoas pareciam respeitar a postura memorial. Mesmo os grupos grandes de turistas trocavam poucos sussurros entre si. E era possível ouvir cada passo rangendo na madeira, mesmo longe. Tornava-se palpável o esforço que os membros do Anexo deveriam fazer para se manterem imóveis durante o dia.
Em termos de espaço, a sala comum de jantar até que era grande. Mas o quarto que Anne Frank dividia com Fritz Pfeffer (pseudônimo Albert Dussel) parecia “uma casa de bonecas". Só cabia os dois colchões sem espaço de transitar. E no passado ali também havia uma escrivaninha que por óbvio era disputadíssima.
Os degraus das escadas eram tão pequenos que eu só podia me apoiar na ponta dos pés, pois nem metade de cada pé cabia. O truque foi subir de lado.
Dentre objetos que me chamaram atenção, havia rabiscos preservados na parede medindo a altura das meninas, um jogo de tabuleiro, cadernos de estudos em latim, espanhol e holandês…
E depois do Anexo
Fora do Anexo, uma sala vermelha continha um diário original e algumas folhas de reescritas da própria Anne.
Notei que um item em particular chamava bastante atenção dos visitantes: um livro com 102 mil nomes de judeus neerlandeses mortos no Holocausto. Meus antepassados brasileiros não fizeram parte dessa história, então não senti o mesmo peso emocional, mas poderia apostar que algum daqueles outros visitantes sim.
Também havia uma sala só sobre a Margot, com fotos dela nos tempos de escola. E uma exposição temporária com objetos das crianças do Jewish Lyceum, como uma espécie de livro de poemas da Jacqueline, mencionada algumas vezes no Diário.
Ah, e uma loja de souvenirs.
Últimas considerações
É uma visita importante se você estiver por Amsterdã. Mesmo se você não tiver lido o Diário de Anne Frank ainda.
O programa introdutório custa uns euros extras e só tem em inglês, recomendo se você gosta de História, mesmo já estando familiarizado com o tema. Caso contrário, tudo bem, as mesmas explicações estão diluídas pelo resto do museu para todos em vários idiomas.
E para quem já leu o Diário, a sensibilidade sensorial sobre os sons e espaço no Anexo se conectam de imediato à leitura. Embora que Anne tenha descrito as coisas tão detalhadamente, que quase tudo era da forma como imaginei mesmo.
Como cautela, aviso que é preciso reservar tickets com antecedência, esgota rápido. E o esconderijo é apertado e preservado da forma que dá, por isso infelizmente a acessibilidade no Anexo é reduzida, vi alguns idosos dando meia volta. Bebês tenderão ao estresse e carrinhos são impossíveis de entrar.
Site oficial do museu: https://www.annefrank.org







