Apenas o bom senso d'Arte da Guerra
Ensaio sobre "A Arte da Guerra" (Sun Tzu)
Há quase três milênios, a China Antiga era uma região conflituosa, povoada por reinos rivais. Nesse cenário de embates frequentes, A Arte da Guerra surge como um manual de otimização logística, exigindo gestão tão afiada quanto a espada para vencer uma batalha já tendo recursos para a próxima.
É preciso dizer ao leitor contemporâneo: não há nada complexo ou genial aqui. Tudo é apenas bom senso de gestão. Mas quem já foi líder sabe que o óbvio precisa ser dito, e foi isso que Sun Tzu fez.
Infelizmente, tocar no assunto “liderança” evoca a imagem de coach da Faria Lima. Por isso, na tentativa de manter a atmosfera literária, entra em cena um outro filósofo já íntimo aos que estudam os princípios das dinâmicas de poder…
Convergências entre Sun Tzu e Maquiavel
Tanto A Arte da Guerra quanto O Príncipe são manuais práticos para lideranças escritos em épocas diferentes. E compartilham alguns padrões lógicos entre si.
Por exemplo, Sun Tzu inicia sempre enumerando os cenários de guerra, enquanto Maquiavel cataloga os tipos de principado. Ou seja, ouvir e entender o ambiente é necessidade estratégica para resolver conflitos, seja na guerra, na política, no trabalho, no lar.
E, como se previsse a futura definição da virtù de Maquiavel, a capacidade técnica de chefiar é descrita também por Sun Tzu em seus ensinamentos:
“O líder representa as qualidades de sabedoria, sinceridade, bondade, coragem e retidão.”
Isso não é uma definição de príncipe encantado. É que os dois autores definem um teto: apenas um líder competente consegue recrutar, treinar e comandar conselheiros competentes. É mais fácil um profissional virtuoso reconhecer outro, mesmo em funções diferentes. É complicado pôr em palavras, pois é um perfil paradoxal: capaz de alcançar objetivos sem picuinhas, mas ainda transbordando zelo mesmo nas etapas mais simples.
Ainda sobre ser virtuoso, Sun Tzu também diz:
“Sairá vencedor: [...] Aquele que sabe quando deve ou quando não deve lutar; […] Os antigos diziam que o perito na arte da guerra vencia quando a vitória era facilmente previsível. […] Do mesmo modo que a água não mantém sua forma constante, também na guerra não há condições constantes.”
Um bom especialista vence problemas de forma técnica, “tediosa”, previsível. E seu inimigo é o “herói”. Em equipes, é fácil reconhecer o herói, ele tem excesso de confiança, sempre na correria, ignora práticas recomendadas, é o único protagonista pois não se interessa em compartilhar o que sabe e vive apagando o fogo que ele próprio acendeu. Gestores fracos aplaudem o herói e são incapazes de reconhecer o profissionalismo real.
A separação entre as ciências política e militar
Em verdade, Sun Tzu e Maquiavel se aprofundam em nuances diferentes de liderança. Por isso, é justo que nem sempre concordem. Sun Tzu explica exatamente onde traçar a linha que os separa:
“É um erro: [...] Tentar comandar um exército da mesma forma que administra o reino, ignorando as condições que prevalecem no exército.”
Por exemplo, enquanto um soberano deve ostentar todas as suas virtudes para obter vantagem política, um general de guerra foca no oposto:
“Um comandante tem que ter uma mente serena e insondável.”
Ainda que de vez em quando “general” e “príncipe” sejam a mesmíssima pessoa, sua liderança deve se ajustar ao contexto. Um líder de padrão paciente, estratégico e democrático, quando em situação de orçamento estourado e prazo apertado, será obrigado a ignorar seus melhores conselheiros, tomar decisões imprecisas e fazer duros sacrifícios.
Decisões tomadas em tempos de guerra não necessariamente fazem sentido em tempos de paz. Assim é a natureza dos problemas.
Perdão, um breve fichamento coach
Com sorte, neste ponto o texto foi purificado do “padrão LinkedIn”. E é hora de arriscar trazer uma coletânea de outros 6 princípios interessantes d’Arte da Guerra. Sem longas reflexões, apenas um comentário contemporâneo em cada.
1.
Chefia dando “coices” é um erro crasso há milênios.
Um bom líder deve zelar pelo bem-estar de seus liderados, enxergando-os como pessoas. Por outro lado, não deve tentar ser bonzinho demais e permitir que incompetentes contaminem a cultura do time. Essa é a síntese de um profissionalismo mútuo. E disse Sun Tzu:
“Se o comandante se preocupa com seus soldados […] afetuosamente, como se fossem os seus próprios filhos amados, então, eles estarão dispostos a morrer com ele na batalha. [...] [Mas] se quando eles violam leis e regulamentos, ele não os castiga ou chama-os à ordem, tais soldados são como crianças mimadas e serão inúteis para batalha.”
2.
O comandante chinês fala muitas vezes, de várias formas diferentes, sobre estar sempre preparado. Você pode interpretar isso como estar sempre se atualizando em estudos para caso fique desempregado, montar reserva de emergência antes da crise ou até mesmo acordar cedo para organizar suas tarefas com margem para imprevistos.
Sun Tzu diz:
“Aquele que ocupa o campo de batalha primeiro e espera o inimigo estará descansado; aquele que chega depois e se lança na batalha precipitadamente estará cansado.”
(Parênteses aos jogadores de xadrez: desenvolva suas todas as suas peças na abertura!)
3.
A voz de comando de Sun Tzu gosta de navegar no meio dos extremos. Sua citação mais famosa seria uma variação de:
“A melhor vitória é vencer sem lutar.”
Mas fora de contexto a frase acima é perigosa. A Arte da Guerra não ensina ninguém a baixar a cabeça ou congelar no tempo. É preciso continuar:
“Há fraquezas fatais de um comandante:
Se ele é valente e com descaso pela vida, poderá ser morto facilmente;
Se ele é covarde na véspera de uma batalha, será capturado facilmente;
Se ele é muito benevolente e preza as pessoas, estará sujeito a se tornar hesitante e passivo.”
Entenda, não há problema algum em ter medo. O senso de autopreservação fez a humanidade chegar viva até aqui, não ignore isso. Para A Arte da Guerra, a coragem real só existe quando, mesmo com medo, você faz o cálculo, enxerga a vitória e ataca.
4.
Antecipando o jargão atual de high agency people, Sun Tzu sugere que às vezes é melhor pedir “perdão” em vez de “permissão” para alcançar um objetivo:
“Se, ao estudar a situação existente e estar certo de que o resultado da batalha resultará em vitória, um chefe sábio decidirá lutar, mesmo se o soberano não lhe ordena.”
5.
Sun Tzu também critica aqueles que agem de cabeça quente. A citação é forte o suficiente para ser exposta sem mais explicações:
“Um soberano não deve empreender uma guerra num ataque de ira; nem deve enviar suas tropas num momento de indignação. [...] Deve ser entendido que um momento de fúria passará, e aquele que está indignado voltará a ser honrado, mas um Estado que pereceu nunca poderá ser reavivado, nem um homem que morreu poderá ser ressuscitado.”
6.
Um último ensinamento interessante de Sun Tzu é também uma de suas frases mais célebres. Ele postula que, se você for disciplinado e focar apenas em diminuir seus próprios erros, tende a só sobrar o sucesso na probabilidade.
“Ser invencível depende da própria pessoa, derrotar o inimigo depende dos erros do inimigo.”
Em bom português: não se compare com ninguém, foque na sua própria vida, tente ser melhor do que você mesmo era ontem.
Crítica do livro: 4/5 ⭐️⭐️⭐️⭐️
Clareza: +1.
O autor organiza princípios de forma lógica ao seu público-alvo da época, e isso garantiu que suas palavras virassem atemporais.
Profundidade: +0.5
Não há o rigor em comprovar o que diz, então é muito bom senso acompanhado de “acredite em mim”. A boa quantidade de facetas abordadas compensa um pouco, mas não resolve o problema.
Execução: +0.5.
Difícil dizer se é um defeito de tradução ou da compilação das tiras de bambu, mas o fato é que o livro tem muitos parágrafos inteiros sendo repetidos com quase as mesmas palavras.
Inovação: +1.
É um texto de guerra pondo ênfase em organização de equipes e inteligência além da força bruta, ideias que assustam alguns viciados em testosterona até hoje.
Propósito do gênero: +1.
Os princípios listados aqui funcionam para qualquer guerreiro e líder disciplinado.
Total: 4 estrelas. É uma leitura curta e leve, mas só folhear é insuficiente, pois não é um livro de autoajuda e as palavras literais são pouco aproveitáveis. É preciso introspectar, as conclusões serão tão profundas quanto a mente de quem lê.



