Aos 5 anos de idade, eu era uma criança caseira de no máximo dois amigos por vez. Um dia, recebi de presente uma “janela” que me permitiu interagir ativamente com mundos de idiomas desconhecidos: o primeiro PlayStation.
Meu apoio para decifrar seu conteúdo foi a princípio meu pai imprimindo tutoriais no trabalho. E depois eu mesmo pesquisando na Internet discada e seus frouxos 50 kbps, à meia noite.
Hoje relato alguns detalhes desta trajetória, para entender minha própria mente e descobrir como ajudar outras pessoas no processo bilíngue.
Meu método
Era indução. As palavras cognatas serviam de base inicial, como 🇺🇸 destroy, car, pause, mission, press etc.
As lacunas eram preenchidas observando causa e efeito. Se o jogo diz 🇺🇸 “press to open”, e ao pressionar um botão algo abria, então 🇺🇸 open seria 🇧🇷 abrir.
Linguistas chamam isso de inferência lexical por contexto.
Primeiro, o inglês
Descobri esse método quando a lâmpada acendeu pela primeira vez acima da minha cabeça, jogando o saudoso “Medalha de Honra”. Inclusive, minha primeira palavra não-cognata foi 🇺🇸 truck / 🇧🇷 caminhão.
A partir daí, revelar o inglês foi questão de paciência.
Já os sons eram mais difíceis. E falhei. No Jackie Chan, mil vezes ouvi e repeti: “aw, here we go again”, “catch me if you can”, “not the face, not the face!”… mas só vinte anos depois descobri a escrita e o significado dessas frases.
Aliás, com “repetia”, quero dizer que emitia sons tão inteligíveis quanto um recém-nascido recitando Machado de Assis. Mas, acredito, isso inconscientemente ajudou a acostumar meu ouvido para fonemas estrangeiros.
E meu portunhol
Raras vezes, pude escolher o espanhol em jogos onde só as muitas cognatas hispânicas me salvariam. Como as cartas de Yu-Gi-Oh! e os documentos de Resident Evil.
Assim, montei um vocabulário castelhano envergonhado e murcho.
Já na escola
Meus estudos formais estruturaram:
conjugação verbal (🇺🇸 I am, he is, we are);
falsos cognatos (🇪🇸 polvo não é um animal, e sim 🇧🇷 pó);
corrigir vícios (🇺🇸 “th” americano por padrão não soa “f” nem “t”);
aceitar diversidade (🇪🇸 calle que pode soar 🇪🇸 “caye” ou 🇦🇷 “cashe”);
exposição cultural (músicas, livros e raízes das línguas).
Acontece que as novidades acabam com um ou dois anos de aulas. Então o fim do Ensino Fundamental e quase tudo do Médio foram repetições tediosas dos mesmos padrões.
O verbo to be, coitado, é exaurido como leite de boi.
Mas e aí, sou fluente em inglês?
Por semanas, fiz uma autocrítica ao meu inglês, o idioma estrangeiro ao qual fui mais exposto.
Durante meu cotidiano de trabalho com gringos, observei que em reuniões estritamente técnicas, meu inglês é macio como faca quente na manteiga. Argumento, debato, faço piadas. Mas ao tentar comentar o que fiz durante o fim de semana, minhas frases travam.
Busquei entender este fenômeno. E descobri um autor psicolinguista chamado François Grosjean em seu livro “Bilingual: Life and Reality”.
Não existe “fluência absoluta e perfeita”
O acadêmico Grosjean defende que em bilíngues é normal ser fluente de forma desigual em assuntos específicos com pessoas específicas. A rigor, sou bilíngue, pois uso regularmente português com minha família e inglês no trabalho.
Aprofundando-me sobre o porquê dos tropeços acontecerem na fluência, dois pontos me iluminaram.
Primeiro, meus anos de profissão e leituras técnicas aconteceram em inglês, os conceitos já estão prontos em inglês na minha cabeça, sem tradução. Segundo, durante um fim de semana com minha família, só tive conversas em português e vivi experiências culturalmente brasileiras, então as memórias disso estavam organizadas em português.
Outro dia, por exemplo, tentei explicar a meus colegas norte-americanos o que era “doce de leite”. Foram necessários três brasileiros, com auxílio de imagens, para explicar o que era.
Por isso, abordar assuntos vividos em idiomas trocados é, no mínimo, caótico. E ter melhor desenvoltura sobre um assunto somente em um idioma é comum e não desqualifica meu bilinguismo nem fluência.
Dito isso, não sei espanhol
Há a míope ideia de que espanhol é mais fácil. Nós lusófonos soamos parecidos com hispanófonos pelas raízes do latim vulgar. Mas semelhante não é igual.
Estive em Madrid recentemente. Resolvi problemas sérios usando "portunhol”. Um motorista muito gentil até me bajulou pelo esforço. Mas não sou fluente. Os madrilenhos me entendiam porque sei gesticular e chuto palavras corretamente, mas eu não estava usando efetivamente espanhol.
Acertar dois socos e um chute não me faz lutador de Muay Thai.
Aí chega o francês
Definidas as premissas de bilinguismo e fluência, montei uma hipótese sobre como eu poderia aprender um novo idioma já adulto.
Optei por adquirir uma “base” fazendo até três horas diárias de Duolingo. Após uns quatro meses, ajustei meu ambiente para modo imersão francófona. Pus meus jogos em francês, tentei ler livros e ouvir músicas.
A experiência foi uma mistura de sucessos e fracassos. Embora eu tenha apreciado minhas horas com o Duo, as “mídias reais” me apresentaram construções verbais, pronúncias e vocabulários completamente novos. Várias vezes me senti frustrado à estaca zero.
Depois, entendi que eram coisas complementares.
Hoje, consigo ler notícias em francês e entender quem fala devagar nas redes sociais. Até visitei Paris, onde me senti “ok” em diálogos turísticos de no máximo duas falas de profundidade.
Agora sou trilíngue?
Talvez.
O importante é que elevei meu autoconhecimento geral e obtive uma hipótese forte de como adquirir e replicar um bilinguismo fluente.
Conclusões
Na minha experiência, o bilinguismo foi melhor alcançado usando a imersão como motor principal. Isto é, “jogar o dicionário fora”, trazer um cenário de hortifruti, apontar para um objeto esférico, vermelho e com talo em cima 🍎 para dizer: 🇫🇷 “une pomme”. Se você não souber francês, consegue chutar o que é 🇫🇷 pomme sem tradução alguma.
As escolas que frequentei fizeram o caminho inverso. Forçaram a decorar uma tabela de conjugações sem haver motivação inicial, ou exigiram ligar pontos de traduções. Ser bilíngue não é ser tradutor.
E, preciso dizer, nenhuma legenda, Google Tradutor ou aparelho consegue replicar a experiência bilíngue de pensar em outro idioma e entender as palavras originalmente escritas ou cantadas. É inexplicável.
Por óbvio, nada do que falei é de fácil execução, nem é bala de prata, tampouco sou pedagogo. Muito do dito aqui se baseia na minha jornada pessoal, que aliás foi percorrida num mundo que não existe mais.










