Noites Brancas tropeça na própria melancolia
Resenha crítica de "Noites Brancas" (Dostoiévski)
O escritor russo Fiódor Dostoiévski é célebre por seus personagens em crise psicológica. No livro Noites Brancas, essa marca nasce, mas se agarrando ainda ao romantismo sentimental.
Nesta novela, o narrador-personagem é um jovem sonhador tão solitário que enxerga amizade apenas nos prédios inanimados da rua. Por um acaso, encontra a jovem Nástienka. E por quatro noites, balançam entre flerte e amizade.
Essa oscilação entre solidão e romantismo é uma faca de dois gumes na obra.
O preço da identificação entre personagem e leitor
O personagem principal nunca diz o próprio nome, porém ainda cria intimidade ao leitor. Na narração em primeira pessoa, seus pensamentos são expostos.
“Meu Deus, um momento inteiro de felicidade! Isso é pouco para a vida toda de um homem?”
E funciona. Dentre os leitores de Dostóievski, é reação comum: “revelou minha alma”, “me identifiquei” etc.
O momento em que isso mais pesa é quando o sonhador e Nástienka estão lado a lado. E ele ininterruptamente discursa sobre sua solidão num único parágrafo que dura sete páginas.
E isso gera uma leitura delicada. Se você já sentiu essa melancolia dramática na vida, apreciará a identificação nas palavras. Por outro lado, se você é uma pessoa mais cética e realista, sentirá impaciência, pois a repetição piegas não agrega à reflexão.
“Porque, quando estamos infelizes, sentimos mais a infelicidade dos outros!”
Esse problema ocorre apenas no meio do livro. Depois, Nástienka inflama melhores interações e conflitos.
Mas os sentimentos de idealização do sonhador são assunto permanente. E surge o espaço para alguns “julgamentos contemporâneos”.
O protagonista é um incel?
“Acredite, nunca conheci nenhuma mulher, nunca, nunca! (…) É verdade que já encontrei duas ou três mulheres, mas que tipo de mulheres eram? Todas senhoras proprietárias de pensões...”
À primeira vista, alguém diria que sim, é um “celibatário involuntário”. Mas essa interpretação é rasa e anacrônica, precisa ser corrigida.
Confunde quando o protagonista de 26 anos treme só de se aproximar da moça. Mas isso só implica que ele é tímido e/ou teme rejeição como qualquer ser humano normal.
O sonhador se difere do conceito incel ao não guardar rancor (nem outros pensamentos misóginos). Ele tem gestos de amizade sincera para com Nástienka, independentemente de lhe ser favorável ou não.
Portanto, a carapuça até paira em sua cabeça, mas não serve.
Nástienka diz pouco, mas é o vetor da história
O narrador só fala de si o tempo todo. Mas a força motriz do que ele pensa, faz e diz é Nástienka. Ela tem seu nome mencionado mais de 100 vezes num livro de 97 páginas.
As várias camadas de Nástienka salvam a complexidade do debate entre eles.
A jovem tem 17 anos, também se sente muito solitária e deseja se libertar de sua avó superprotetora para viver a vida. Atravessou sintomas análogos à depressão no passado, mas no presente está esperançosa com um plano para mudar sua vida. E ela tem coragem para executá-lo.
E o enredo gira em torno de com quem Nástienka deseja noivar e o misto de sentimentos dos personagens a respeito disso.
Crítica final: 3,5/5 ⭐️⭐️⭐️
Clareza: +1.
Os personagens, suas ideias e a trama são elementos explícitos e óbvios.
Profundidade: +0,5.
O narrador-personagem fala muito de si, mas é sempre a mesma coisa repetida em palavras diferentes, é Nástienka quem compensa.
Execução: +0.
A “tempestade em copo d’água” no meio do livro é arriscada e desanima, o desconforto não vem da reflexão sobre melancolia e sim do tédio.
Inovação: +1.
O estilo é bem singular, corre em romantismo, ensaia o interesse pela solidão, e conquista intimidade mesmo sem o protagonista se identificar.
Propósito do gênero: +1.
Independente da execução arrastada, o conteúdo da história é sim memorável, o final é ótimo e a obra toda tem capacidade para boas conversas e reflexões.
Total: 3,5 estrelas. Vale a leitura, é uma novela curta e original, mas o leitor precisa ser advertido sobre o que precisa tolerar.



