Ouça o silêncio, veja a escuridão
É assim que a gente se encontra
Três horas da manhã. Ouço meu filho, de um ano, chorar. Beijo minha esposa e vou ao quarto dele. A luta poderia durar um minuto ou uma hora, nunca se sabe.
O choro é alto, daqueles que vêm da garganta, preenchendo a casa inteira.
Deito ao lado dele no escuro, ponho a mão em sua barriga. Apenas me mostro presente. Ele reage melhor quando inicialmente respeito seu espaço. Os berros persistem por mais um ou dois minutos.
De súbito, como se a criança tivesse um interruptor, o choro para.
Sinto as mãozinhas tocando meu rosto, tateando na penumbra para identificar quem é a figura. Ele corta o silêncio, sussurrando bem próximo do meu ouvido, perto o suficiente para me arrepiar:
— Papai?
Nunca imitei “voz de bebê”, portanto respondo tão sério quanto quem responderia a um funcionário de cartório:
— Papai.
O estranho diálogo parece ter feito algum sentido. Pois o ouço se recompor, um longo suspiro misturado com soluços.
Os bracinhos vão ao encontro do meu pescoço. Apertam bem forte. Não é exatamente um abraço, é como se ele fosse um chaveirinho humano.
Abraço-o de volta. Por vários minutos ficamos ali. Em silêncio. No escuro. A única dica de que ele permanece acordado são seus cílios tocando minha bochecha. Nossos batimentos cardíacos quase se confundem, de tão próximos.
Controlo meticulosamente de meus músculos da face aos dedos do pé. Sem mover nada, preservando o momento precioso.
É depois de um tempo que compreendo o porquê de aquele abraço estar tão forte e exótico. É óbvio. Perdão, é que os adultos não entendem nada sozinhos, é cansativo para as crianças estarem sempre lhes dando explicações.
Não era um abraço apertado de afeto. Ele havia forjado a própria paz e só precisou me usar de escudo para mantê-la.
Pois você pode buscar descanso em qualquer lugar, num sofá, numa praia, numa viagem. Mas, parafraseando o imperador Marco Aurélio, apenas a própria alma guarda a possibilidade da tranquilidade real.
Muitos tremem de nervoso ao menor sinal do breu mudo, quando são obrigados a olhar e ouvir o que sobra: a si mesmo. A paz interior não vem de graça, mas ao fim da batalha, você versus você. E quando a poeira baixa, sobra tranquilidade…? Ou barulho de arrependimento, de frustração, de pesar?
Mas voltando à narrativa… ele dormiu. Seus cílios pararam de me fazer cócegas, a respiração está lenta. Sentindo que me é permitido, desvencilho-me de seus braços e retorno ao meu quarto.
Tentei refletir um pouco mais sobre a lição que meu filho inconscientemente tentou me passar. Mas sempre fui um aluno levemente preguiçoso, apenas dormi também.
(Por fim, quase que como uma nota de rodapé… sim, o momento foi lindo, mas na semana seguinte dentes novos começaram a nascer. O choro ficou inconsolável. É muito possível que Marco Aurélio não meditou sobre como lidar com isso. 🤷♂️)
Boa noite! 🌙


